Historiador, humoristas e chef de cozinha revelam como elementos como a Marcha para o Oeste, o tereré e o churrasco moldam a identidade local
Mato Grosso do Sul, que completa 48 anos, tem sido carinhosamente chamado de 'Velho Oeste Brasileiro'. Historiador, humoristas e chef explicam as origens e a aceitação.
Mato Grosso do Sul, que celebra 48 anos de existência neste período, tem visto sua identidade cultural ser cada vez mais associada à imagem do “Velho Oeste Brasileiro”, um apelido que ressoa entre a população local. Atores centrais da cultura sul-mato-grossense, como o historiador Alexandre Goicochea, os humoristas Fred Oshiro e Higor Alexandre, e o chef Bruno Xavier, desvendam os motivos por trás dessa curiosa fama, que envolve chapéus, botas, comitivas e o tradicional tereré.
A comparação, segundo o historiador Alexandre Goicochea, conhecido como Goico, possui um fundo histórico relevante. Ele explica que, durante o Governo Vargas, entre 1937 e 1945, a “Marcha para o Oeste” foi um projeto nacional com propósitos semelhantes aos da expansão norte-americana. Contudo, o movimento brasileiro visava consolidar o território e fortalecer o ideal de nação, em vez de apenas uma corrida por terras.
Apesar de a divisão do antigo Mato Grosso ter ocorrido há quase 50 anos, o estado de Mato Grosso do Sul ainda enfrenta desafios na consolidação de sua própria identidade cultural e coletiva. Goicochea aponta que a ausência de participação popular e de um projeto de estado claro no processo de divisão contribuiu para essa falta de integração com o restante do Brasil. Enquanto o vizinho Mato Grosso é frequentemente associado ao “Texas Brasileiro” devido ao forte agronegócio, Mato Grosso do Sul abraça o papel de “Velho Oeste”, com seu charme de comitiva e o cheiro de churrasco, embora também possua uma economia agropecuária robusta.
O humor também se manifesta como um pilar dessa identidade. O humorista Fred Oshiro, por exemplo, encara a atmosfera de faroeste até mesmo na Capital com bom-humor. Ele brinca sobre cenários inusitados, como uma capivara atirando ou um jacaré mordendo um ombro, e compara o trânsito local a um duelo constante. Para Oshiro, o humor é a melhor forma de traduzir o jeito de ser do sul-mato-grossense, que se mostra criativo e irônico, superando estereótipos.
Corroborando essa visão, o influenciador e comediante Higor Alexandre também percebe que a fama de “Velho Oeste” se encaixa perfeitamente. Ele atribui a combinação ao chapéu, ao sotaque e à personalidade “sem paciência para enrolação” dos habitantes. Higor, que se descreve como o “pistoleiro das piadas rápidas”, reconhece o “riso seletivo” do público campo-grandense, mas ressalta que o humor ajuda a mostrar uma cultura forte e respeitosa, que vai além da imagem do peão limitado.
Na culinária, o chef e influenciador Bruno Xavier encontra o mesmo espírito. Ele descreve o sul-mato-grossense como um “cowboy” trabalhador, que valoriza a lida e o simples, mas que também sabe aproveitar a vida. A gastronomia local, que mistura influências do Paraguai, Bolívia e do Sul do Brasil, reflete essa personalidade rica. Pratos como o churrasco de chão, a costela, o arroz carreteiro e o macarrão de comitiva são exemplos que pedem tempo, fogo e a companhia de pessoas, simbolizando a valorização do que vem da terra e a alegria das mesas cheias. Para Xavier, o sabor que melhor resume o “Velho Oeste Brasileiro” é o da carne assando lentamente no fogo de chão, com seu característico aroma de fumaça.
Em suma, entre as risadas dos humoristas, as explicações históricas e os sabores inconfundíveis, o “Velho Oeste” de Mato Grosso do Sul se revela menos como um cenário de confrontos e mais como um espaço de pertencimento. É um estado onde a tradição e a identidade são construídas no ritmo da comitiva, no calor de uma roda de tereré, com muito bom humor, hospitalidade e um orgulho evidente de ser, e de proclamar em alto e bom som, Mato Grosso do Sul.