Estudo revela que um terço dos casos de violência política no Rio de Janeiro tem motivação de ódio

Uma investigação jornalística revela que 89 dos 267 casos de violência política na região metropolitana do Rio de Janeiro têm motivação de ódio, como racismo [...]
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Levantamento do Observatório das Favelas aponta que racismo, misoginia e homofobia impulsionam ataques em 89 ocorrências no Grande Rio.

Uma investigação jornalística revela que 89 dos 267 casos de violência política na região metropolitana do Rio de Janeiro têm motivação de ódio, como racismo e homofobia.

Um estudo divulgado nesta terça-feira (14) pela organização da sociedade civil Observatório das Favelas revela que um terço dos incidentes de violência política na região metropolitana do Rio de Janeiro tem motivação de ódio. A pesquisa, que abrangeu o período de janeiro de 2022 a junho de 2025, identificou 89 casos dessa natureza entre um total de 267 ocorrências, envolvendo questões como racismo, misoginia, homofobia e transfobia.

Os dados analisados indicam um padrão preocupante de ataques, especialmente contra pessoas negras, cujo número quase dobrou entre 2022 e 2024, saltando de 17 para 30 casos. O pesquisador Leandro Marinho, um dos autores do levantamento, estabelece uma conexão entre o aumento de candidaturas negras nas últimas eleições – em 2024, 52,7% dos candidatos eram negros – e a maior vulnerabilidade desses grupos a atos de violência. Por outro lado, a violência política contra brancos registrou uma leve queda no mesmo período, passando de 33 para 30 ocorrências.

A análise detalhada dos 267 casos revela que as agressões verbais representam 15% dos registros, seguidas pela repressão policial a manifestações políticas (13%), atentados contra a vida sem morte (12%) e execuções (12%). Ameaças (10%) e agressões físicas (9%) também são comuns. Em 30% dos incidentes, armas de fogo foram utilizadas, resultando em 33 atentados contra a vida e 31 execuções durante o período estudado. Quanto aos agressores, políticos foram identificados em 59 registros e policiais em 58, com grupos armados sendo responsáveis por 29 ocorrências. A repressão a manifestações políticas figura como a principal ação de policiais, com 35 dos 58 registros.

O estudo ressalta que a violência política se acirra notavelmente em períodos eleitorais, definidos pelos pesquisadores como os meses de junho a outubro nos anos de pleito. Na Baixada Fluminense, região que historicamente enfrenta desafios de segurança e que concentra municípios como Nova Iguaçu e Duque de Caxias, foram registradas 65 execuções desde 2015. Fora do período de eleições, uma morte ocorre a cada 75,6 dias, mas esse ritmo se intensifica drasticamente para um assassinato político a cada 22,5 dias durante o ciclo eleitoral, indicando que a proximidade das urnas triplica a frequência desses crimes.

João Trajano, coautor da pesquisa, enfatiza que, embora não se possa comparar a gravidade de um homicídio com uma ofensa verbal, o conjunto dos dados aponta um “sinal de alerta para a saúde e para o avanço da nossa democracia”, especialmente na política local, mais distante da macro política. Para o pesquisador André Rodrigues, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a diminuição da violência política no Rio de Janeiro passa por um maior rigor da Justiça Eleitoral na apuração de envolvimentos criminais de candidatos, principalmente no âmbito municipal, onde as instituições podem ser mais frágeis. Rodrigues também sugere a implementação de uma “quarentena” para agentes de segurança pública que desejam ingressar na política, impedindo-os de usar seu cargo ou patente como capital político.

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