A definição de governadores eleitos ou reeleitos no primeiro turno em 21 estados, que reúnem aproximadamente 92% do eleitorado brasileiro, deve influenciar a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Sem campanhas estaduais em andamento nessas unidades da Federação, a mobilização dos eleitores tende a diminuir e pode contribuir para o aumento da abstenção.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais de 33 milhões de eleitores, o equivalente a 21,07% dos aptos a votar, não compareceram às urnas no primeiro turno. Historicamente, a participação costuma cair ainda mais na segunda votação. Entre 2002 e 2018, a abstenção aumentou em todos os segundos turnos. Em 2022, houve uma pequena queda, de 20,9% para 20,6%, variação de -0,36 ponto percentual.
Fábio Vasconcellos, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da PUC-Rio, que conduziu estudo sobre as disputas presidenciais de 2002 a 2022, afirma que a definição antecipada nos estados eleva a abstenção nacional em média em 1 ponto percentual, mas pode ter efeitos distintos conforme a região. "A abstenção no Nordeste é um problema maior para o Lula porque você tem uma base que majoritariamente vota nele. A cada dez votos, seis são dele. No Sudeste, o Flávio é mais bem votado. Se houver abstenção ou desaceleração maior ali, ele pode ser mais prejudicado. Mas, no país como um todo, se você pegar todos os dados e comparar, o efeito da abstenção é nulo", explica Vasconcellos.
O cientista político e professor do Insper Leandro Consentino avalia que o fim das campanhas para governador produz efeitos contraditórios. De um lado, a interrupção da mobilização estadual pode reduzir o engajamento. De outro, governadores já eleitos ficam mais livres para atuar em favor de seus aliados na corrida presidencial. "Eu acho que tem um efeito ambíguo, pensando nos candidatos a presidente. Por um lado, acho que há uma desmobilização das campanhas estaduais. Por outro lado, eu acho que também tem um outro efeito, já que uma vez que os governadores já estão com sua vida resolvida, eles podem se dedicar muito mais à campanha dos seus aliados à Presidência", pondera.
Cinco estados e o Distrito Federal terão disputa para governador no segundo turno: Espírito Santo, com Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB); Amazonas, com Omar Aziz (PSD) e Professora Maria do Carmo (PL); Rio Grande do Norte, com Allyson (União Brasil) e Cadu de Lula (PT); Acre, com Mailza Assis (Progressistas) e Alan Rick (Republicanos); Tocantins, com Professora Dorinha (União Brasil) e Vicentinho Júnior (PSDB); e Distrito Federal, com Celina Leão (Progressistas) e Leandro Grass (PT). Nessas unidades, as campanhas estaduais continuam e podem contribuir para a mobilização dos eleitores. "É a primeira vez que a gente tem uma competição presidencial tão acirrada e, pela primeira vez, com tão pouco segundo turno nos estaduais. São dois fatos inéditos que a gente vai ter que estudar muito quando saírem os resultados, para ver o que aconteceu", conclui Vasconcellos.