A Ilusão das Conexões sem Olhar: Por Que John Donne Nunca Foi Tão Atual

A Ilusão das Conexões sem Olhar: Por Que John Donne Nunca Foi Tão Atual Por Elisabete Rodrigues Ferreira A qualquer hora do dia, basta um [...]

A Ilusão das Conexões sem Olhar: Por Que John Donne Nunca Foi Tão Atual

Por Elisabete Rodrigues Ferreira

A qualquer hora do dia, basta um deslizar de dedos pela tela de um celular para estarmos virtualmente em qualquer lugar do planeta. Podemos acompanhar uma crise a milhares de quilômetros de distância, curtir a conquista de um conhecido distante ou emitir uma opinião instantânea sobre o assunto do momento. Nunca fomos tão hiper conectados. E, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos vivido de forma tão isolada.

Essa contradição torna um texto do século XVII estranhamente urgente. Em 1624, acamado por uma grave doença, o poeta e clérigo inglês John Donne ouviu os sinos de uma igreja anunciarem o funeral de um desconhecido. Daquele momento de vulnerabilidade nasceu uma metáfora imortal: “Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo.”

Quatro séculos depois, a imagem do continente e da ilha ganha contornos de um diagnóstico social sob medida para o nosso tempo.

O Abismo da Conectividade Seca

Vivemos a era da ilusão da autossuficiência. Fechados em nossas bolhas digitais, construímos feudos de convicções onde só entram vozes que confirmam aquilo em que já acreditamos. Alimentamos a ideia de que nossas conquistas são fruto exclusivo do nosso mérito individual e que o sofrimento que nos cerca pela cidade é apenas um transtorno no trânsito ou um dado estatístico no jornal da noite.

Existe aí um profundo distanciamento do olhar. Vemos tudo, mas enxergamos muito pouco. A tela que nos aproxima em velocidade também serve como um vidro blindado que nos protege do incômodo de sentir a dor alheia. Criou-se uma cultura em que o outro é frequentemente tratado como um obstáculo, uma ameaça ou um simples número de seguidores.

No entanto, a física da vida em sociedade insiste em nos desmentir. As crises ambientais, as instabilidades econômicas, os problemas de saúde pública e a epidemia silenciosa de solidão que assola as metrópoles mostram que o solo onde pisamos é exatamente o mesmo. Quando a maré sobe para um, o nível da água se altera para todos.

A Solidariedade Como Fato Existencial

A grande provocação de John Donne não é um apelo sentimental ou um conselho moralista sobre “ser uma boa pessoa”. É uma constatação realista e existencial: pertencemos uns aos outros, queríamos ou não.

Na conclusão de sua famosa meditação, ele adverte que a morte de qualquer indivíduo o diminui porque todos fazemos parte da mesma humanidade. Daí o aviso célebre: “Nunca pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

A solidariedade, portanto, não deveria ser enxergada como um gesto eventual de caridade, mas como uma estratégia básica de sobrevivência coletiva. Reconhecer que não somos ilhas é o primeiro passo para reconstruir o tecido social que vem se esfarelando sob o peso do egocentrismo.

Em um mundo que nos incentiva a erguer muros e cultivar o isolamento, lembrar que somos continente não é apenas uma reflexão poética — é um ato de resistência e sanidade

.

Leia mais

Rolar para cima